Imunologia e Sistema Nervoso – Capitulos 1 e 2

Capitulo 1 (revisto em 05/02/2020):

Relação entre Sistema nervoso e Sistema Imune

Elizabeth Regina Comini-Frota e Eduardo Antônio Donadi

Introdução:

O  Sistema Nervoso (SI)  e o Sistema Nervoso Central  (SNC) em particular tem relações muito diferenciadas com o Sistema Imune (SI). O SNC é considerado um sítio imunoprivilegiado, por ser um microambiente altamente especializado em se proteger de reações imunomediadas. Este microambiente é mantido pela Barreira Hemato-Encefálica (BHE), pelos nervos do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), pela células residentes neurônios e astrócitos que produzem fatores imunossupressores e controlam a expressão de moléculas de superfície. A apresentação de antígenos, a produção e mobilização de moléculas de superfície, a migração de células, a produção de anticorpos são controlados para promover a preservação dos neurônios e da mielina. Antígenos próprios do SNC são apresentados no timo aos linfócitos em maturação, para selecionar aqueles com menos especificidade, mas no repertório natural de linfócitos de um indivíduo permanecem linfócitos auto-reativos que normalmente circulam no SNC mas não produzem inflamação. Da mesma forma auto-anticorpos da classe IgM contra produtos de degradação de células do tecido nervoso participam da manutenção e da remodelação do tecido. Nesta revisão nós focalizamos as particularidades da relação entre células e proteínas circulantes do SI com as células e a homeostase do SNC.

Peculiaridades imunológicas do SNC

Até recentemente, o SNC era considerado um sítio de resposta imune privilegiado, como a câmara anterior do olho ou os testículos. Nesses locais os tumores e os tecidos implantados não estimulam imediatamente a resposta imune. Atualmente, o SNC é reconhecido como um sítio de resposta imune especializada1.  Diversas particularidades favorecem essa idéia: a) não se conhece uma drenagem linfática do SNC, o LCR que funciona como tal, é produzido e reabsorvido dentro do próprio sistema; b) a organização celular do parênquima desfavorece o acesso e a ação de células do sistema imune; c) a presença da  BHE, prevenindo a entrada de células e macromoléculas nas junções do endotélio dos capilares e d) baixa expressão de moléculas de histocompatibilidade (HLA – histocompatibility leukocyte antigen) de classe II nas células residentes, sendo expressas somente na microglia, ocorrendo apresentação de antígenos a linfócitos virgens de forma menos expressiva2. Até há bem pouco tempo, não havia sido demonstrado a presença de MHC classe I em neurônios em condições normais sem ativação por citocinas.  Recentes estudos detectaram uma população neuronal expressando RNAm para essas moléculas, na ausência de infecção, mostrando que o imunoprivilégio não é absoluto. Ainda observou-se que mesmo os neurônios expressando MHC classe I são resistentes à aproximação de células com capacidade citolítica2.  Por outro lado, a resposta humoral a antígenos dependentes de células T é muito mais expressiva no SNC do que em qualquer outro sítio. As bases do imunoprivilégio, portanto, não residem somente na expressão de moléculas ou na efetividade da resposta imune, mas, provavelmente, na regulação ainda pouco compreendida da entrada de células no SNC1. A entrada de células no SNC é extremamente selecionada e se faz por três sítios específicos: o plexo coróide, as arteríolas meningeas e o endotélio dos vasos parenquimatosos. As células do SI tem três funções importantes no SNC além da imunovigilância, manutenção da estrutura, reparação de tecidos lesados, produção de fatores neurotróficos3. Discorremos  nos próximos capitulos sobre cada um destes sítios e sobre as funções.